Tranquill Wehenfeuer e seus três ratinhos

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de Markus A. Hediger.

Em 2007, quando voltei ao Brasil após passar alguns anos no exterior, trouxe comigo uma caixa cheia de anotações: manuscri-tos inacabados, esboços de personagens que, algum dia, talvez me fossem úteis num de meus romances, anotações sobre pai-sagens, nomes de cidades e suas ruas. A caixa era grande de-mais para ser levada na cabine de passageiros, mas representa-va o que eu possuía de mais valor. Seu preço era inestimável, eu investira milhares de horas na criação daquele conteúdo. Não queria largá-la por um minuto sequer. Mas lá estava a funcionária da companhia aérea insistindo para que eu entregasse a caixa aos seus cuidados. „Os regulamentos são claros“, dizia ela, „a lei exige que esta caixa viaje no compartimento de bagagem. Sinto muito, senhor.“

Relutei. A fila no check-in estava aumentando e os outros passa-geiros começaram a reclamar da demora. Finalmente, coloquei a minha querida caixa na esteira de transporte e lá se foi ela. Su-miu por trás de uma minúscula porta e eu estava certo de que nunca mais a veria.

Fizemos escala em Paris. Olhando pela janela de um dos infinitos corredores do aeroporto Charles de Gaulle, descobri minha caixa num daqueles tratores que levam a bagagem de um avião para outro. Não imaginam vocês o meu alívio, quando a vi desapare-cer no interior de uma aeronave da TAM.

A viagem de Paris ao Rio de Janeiro foi tranqüila. Sabia que a caixa, da qual meu futuro como escritor tanto dependia, estava a poucos metros abaixo do meu assento. Dormi feito um bebê e sonhei com meus futuros livros. Ao pousarmos no Rio, corri para o setor de entrega de bagagens. Esperei pacientemente, até que, finalmente, o monótono carrossel da esteira começou a dar suas voltas. Vieram nossas malas, vieram as malas de outros passa-geiros, vieram sacolas, pranchas de surfe, só não veio a minha caixa. Desesperado fui até o escritório de „Achados e perdidos“. Descrevi meu desespero a uma funcionária simpática e sorriden-te. Ela, em plena consciência do tamanho do drama pelo qual eu passava, teclou alguns números em seu computador. Não gostei nada da expressão em seu rosto. „O que aconteceu?“ gritei. Com um simples gesto mandou-me calar a boca. Fez alguns telefone-mas. Finalmente, colocou o telefone no gancho e me olhou, séria. „Aconteceu um pequeno acidente“, confessou. „Quando retiraram a sua caixa do avião, ela escorregou e, sei lá, talvez nossos fun-cionários subestimaram o seu peso, realmente não sei lhe dizer o que, de fato, aconteceu. Só sei que a sua caixa escorregou e caiu no chão. Ao se chocar contra a terra, ela – é claro – se abriu e o conteúdo espalhou-se todo por entre os aviões. Neste momento, estamos recolhendo todos os seus papéis. Por favor, deixe seu endereço e telefone. Entregaremos a sua bagagem em casa. Sentimos muito pelo incômodo que lhe causamos.“

Dois dias depois, entregaram minhas anotações numa caixa no-vinha em folha. Quando a abri, encontrei milhares e milhares de palavras minhas completamente fora de ordem. Era uma ba-gunça total. Precisei de uma semana inteira para reestabelecer a ordem original. Quando, enfim, terminei, suspirei aliviado: Parecia estar tudo ali. Só para ter certeza, comparei cada item com uma lista que eu havia feito antes de viajar. E foi aí que descobri a terrível ausência de Tranquill Wehenfeuer. O professor Wehen-feuer era um personagem que criara muitos anos atrás. Várias vezes tentara escrever sua história, mas sempre algo me impedi-ra de terminá-la. Eu gostava dele, era um ser estranho, um pro-fessor de literatura perseguido por ratos que comiam todos os livros que ele lia. Isto o forçava a decorar todos os textos e livros; mal acabava de ler e fechar um de seus eruditos tomos, os ratos apareciam do nada e devoravam as páginas que suas mãos ha-viam acariciado minutos antes. Quando percebi que Tranquill Wehenfeuer desaparecera das minhas anotações, soltei um grito terrível. „Roubaram meu professor!“ gritei. „Vou processar o mal-dito aeroporto!“ uivei. „O que será de mim sem meu professor?“ chorei. Ato contínuo, liguei para a funcionária que me atendera no aeroporto e relatei meu novo drama. Do outro lado da linha, ouvi-a suspirar. „O tempo não era bom naquele dia, senhor,“ disse ela com sua voz simpática, „é bem possível que o seu professor ten-ha sido levado pelos fortes ventos. Não há mais nada que pos-samos fazer por ele.“ Meu professor, meu querido professor Tranquill Wehenfeuer levado pelo vento, quem sabe, talvez ao alto mar onde sofrerá a terrível morte por afogamento!

Fiquei de luto durante uma semana. Depois retornei à vida e vol-tei a escrever e a criar outros personagens. Não demorou e es-queci o professor e seu trágico destino.

Poucos dias atrás, visitei uma livraria no centro da cidade. A loja estava quase vazia. Havia nela, além dos vendedores, apenas duas pessoas. Uma jovem estudante linda e um senhor de meia idade, ambos de costas para mim. Eu estava lá para comprar um livro específico (Seis propostas para o próximo milênio, de Italo Calvino) e prestes a pedir ajuda a um dos vendedores, quando percebi um detalhe naquele senhor de meia idade que me cha-mou a atenção: carregava em seu braço esquerdo um pesado manto de inverno, do tipo que só se usa em regiões de clima ártico. Hm, pensei, que cara mais estranho. Estamos no Rio de Janeiro e este homem parece esperar uma tremenda queda de temperatura… Observei-o com mais cuidado. Ele não me parecia estranho. Instintivamente olhei em volta e lá, num canto escuro entre duas estantes, não muito longe daquele senhor, descobri três ratinhos. Não havia dúvida: aquele senhor era o meu querido professor! „Senhor Wehenfeuer!“ exclamei. „Meu querido profes-sor, o senhor está vivo!“ E o professor, lentamente, voltou-se para mim, olhou-me, e perguntou: „Nós nos conhecemos?“

Expliquei-lhe quem eu era. Não me reconheceu. Triste, voltei para casa.

Passei noites em claro. Tentei desvendar o mistério daquele en-contro. Encontrei uma única explicação. Imagino que tenha acon-tecido o seguinte:

Naquele dia infeliz, em que a caixa se abriu no asfalto do aero-porto do Rio de Janeiro e o seu conteúdo se espalhou por toda parte, havia, entre os funcionários que recolheram minhas ano-tações, uma pessoa que – ao levantar uma das folhas de papel – parou para ler o que nela estava escrito. Era a folha em que esta-va escrita a história do professor. Naquele mesmo instante em que o funcionário leu e tomou conhecimento da existência de Tranquill Wehenfeuer, o professor veio à vida na imaginação daquele improvável leitor. A partir daí, o ilustre e culto mestre já não era mais meu. Pertencia àquele novo leitor, que passou a nutri-lo com seus próprios pensamentos e suas próprias idéias até que, certo dia, decidiu libertá-lo da prisão de sua mente e deixá-lo viver sua própria vida. O que permaneceu de meu Tran-quill Wehenfeuer foi o seu amor pela literatura e a companhia irritante dos ratinhos. Não me reconheceu, porque eu já não era mais seu criador. No exato momento em que alguém lê as min-has palavras, neste mesmo instante, deixo de ser dono daquilo que escrevi.

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